Ela costumava dizer o quão vazio o mundo poderia ser. Já que havia chegado à um ponto que poucos chegariam e suportariam. Um dia finalmente disse o que conseguia escutar no escuro, como essas vozes poderiam ser altas, dolorosas e perturbantes, acrescentando no mesmo discurso que de vez em quando, ficava nele sem poder sair por um bom tempo. Porém, o que mais repetia dentre todas essas coisas, era o que mais "parecia" sentir. Ela sempre aproveitava a oportunidade de falar sobre essa dor, sobre como isso ainda a perseguia, por mais que houvesse um momento onde isso não fazia sentido. A dor da solidão, a dor de estar literalmente sozinha. Isso era o que mais temia, ela dizia.
Mas, parece que o mundo fez o favor de girar e assim, todos esses medos foram colocados em uma caixa. Sem pressa alguma. Um por um, ocupando o seu espaço nesse objeto retangular. E assim, foi o momento de fechar a caixa. Eles não seriam "necessários" no momento e poderiam ficar ali dentro por algum tempo, selados por quatro paredes de papel. 
O mundo continuou girando, e aquela pessoa que um dia não teve nada, passou a ter tudo. Todas as coisas e pessoas que seriam necessárias para segurá-la nesse lugar que é tão difícil de se viver. Ela tinha, pela primeira vez em anos, o que sempre desejou, mas que por alguma razão até então desconhecida, a vida não a proporcionou. Essa era a hora de realmente ter esse novo prazer e apenas senti-lo. Esse era o momento para mostrar que por mais que tenha sobrevivido à tudo aquilo dentro da caixa, até esse momento, ela não sabia ainda o real significado de viver. Mas, iria começar à partir de agora, ou pelo menos deveria. No entanto, ela decidiu fazer diferente do esperado. Resolveu colocar todas essas coisas novas também em uma caixa, porém essa ela não guardou. Logo após ter colocado a tampa, ela amassou com os próprios pés o que havia ali dentro. Colocando, assim, a sua pessoa acima de tudo. 
Assim, ela voltou para o começo, para onde talvez, ela não deveria ter saído, por ainda não saber viver no que realmente é real e verdadeiro. Talvez ela viveu tanto em um universo criado por ela mesma, que não aprendeu como "deveria" se portar neste novo mundo. E talvez nunca aprenda. Há uma vastidão de possibilidades pelas quais decidiu dar meia volta, porém nenhuma delas vai justificar a sua escolha. Talvez, ela precisa de mais algum tempo, ali sozinha, para aprender algo que não a faça pisar no futuro em uma caixa que ela deve manter aberta.
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