26.7.17
O círculo
Não posso dizer com exata certeza quem invadiu o espaço do outro. Então, peço perdão por não ter essa exatidão. Mas, eu lembro exatamente o momento que estávamos no mesmo círculo, com uma medida razoável, contendo bastante espaço para você e para mim. Eu conseguia caminhar, assim como você, e fazia proveito disso para tentar de algum jeito conhecer todos os lados da sua forma, que apesar de alguns dizerem que você tinha uma forma humana, eu apenas via um quadrado. Então, por mais que eu tentasse enxergar tudo, você sempre continuava tendo um lado escondido e sempre o matinha dessa forma. 
Com o tempo, o espaço foi diminuindo gradativamente, ou seja, nada muito rápido, porém às vezes, lento demais. Por conta disso, eu fui me aproximando de você, até mesmo sem perceber, porque tudo estava acontecendo de uma forma natural. E, por incrível que pareça, ninguém nunca roubou ou ficou com o espaço do outro. Assim, passavam-se os dias e eu só observava a forma chegando perto cada vez mais, até ela ficar de frente para mim, sem nenhum espaço para se mover. 
Quando chegamos nesse ponto de apenas poder olhar a frente e os lados um do outro, você acabou ficando com dois lados que eu não podia ver. A única forma que eu tinha de conhecê-los era através de você, mais precisamente, das suas palavras. Mas, mesmo assim, por um bom tempo eu admirei o que eu via com os meus próprios olhos e sempre ficava fascinada pelo que não podia ver, porque aquilo de alguma forma prendia minha atenção. Nesse tempo, estando "distraída" por suas palavras, acabei não percebendo e deixando passar muitas coisas que estavam acontecendo no círculo. Contudo, ainda tive vontade de abraçar aquela forma à minha frente e apenas fiz isso, sem hesitar, ficando por um bom tempo assim. 
Aos poucos, fui percebendo uma dor que progressivamente ia se intensificando. E para falar a verdade, não sabia como essa dor começou e nem de onde tinha se originado. Porém, o tempo foi passando da mesma forma que antes, com uma única diferença que era essa pequena mudança. Até eu sentir algo escorrendo em mim. Logo quando percebi, encontrei facilmente a fonte de tudo isso, já que as linhas de sangue me guiaram até o quadrado que eu ainda abraçava com força. Ainda assim, me recusei a soltá-lo, por uma razão que não conseguia explicar, mas isso só fazia escorrer mais sangue, me deixando mais viva a cada gota. 
À partir desse momento, tive que abrir meus braços para largá-lo. Não conseguia mais sentir tanta dor, não conseguia mais o sentir do jeito que sentia. E após isso, a forma ainda ficou de frente para mim, no mesmo lugar, como se apenas eu estivesse sentindo tudo aquilo. E estava. Mas, somente o ato de soltar não foi o suficiente para mim, porque ainda sentia dor estando no mesmo espaço com o que ocasionou tudo isso. Então, a única solução que havia para mim era sair e abandonar esse círculo que passou a ser de alguma forma, prejudicial. Entretanto, para minha surpresa, ainda ficaram vestígios dos dias de dor e, às vezes, parece que ainda sinto algo escorrendo em mim, ou então, sinto pontas afiadas como as do quadrado me cutucando. 
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