Anos atrás, uma pessoa me disse que eu não era quieta e sim observadora. Até então, nunca havia pensado sobre isso. E é o que eu mais gostava de fazer quando estava sentada no banco da frente de passageiro do seu carro. Ver como você colocava as mãos no volante enquanto falava e como conseguia falar tanto me fazendo apenas escutar em vez de fazer o mesmo. Como você olhava pra mim com esses olhos castanhos que mais pareciam pretos de tão profundos, podendo me fazer perder por horas por conta do meu vício ao escuro, sem contar com um sorriso de lado que não conseguia saber se era de graça ou por nervosismo. Apesar de sempre estarmos banhados pela escuridão da noite, havia luzes suficientes para deixar visível apenas o que era mais importante, deixando seu rosto aparente para mim só pela metade. É como nos olharmos no cinema, porém nesse caso, não estávamos nem um pouco interessados no filme que estava passando lá fora.
Foi estranho tudo isso na primeira vez, e até rio dela quando lembro, mas de alguma forma, fizemos esse lugar desconfortável para ficar por horas em algo que não se perceba o quanto o tempo está passando. Aliás, muitas pessoas dizem que não se abrem para os que estão à sua volta, que não gostam muito de contar sobre elas mesmas, e você se incluía nessa categoria. Porém era interessante em como você gostava de falar muito sobre tudo, e apenas sendo um pouco silenciosa, já estava escutando você não só contando coisas sobre si, como também sobre quem está mais presente em seu convívio. O que era interessante, já que não só gosto de saber sobre as pessoas, mas também sobre a visão delas sobre seus elos.
Quando a conversa começava, costumava colocar minhas pernas sobre as suas, porque essa é minha forma de me sentir mais à vontade. E por um movimento natural, você sempre ficava acariciando minhas pernas, e até hoje não sei dizer o porquê disso, já que concordamos desde o começo a não dar importância para esse tipo de coisa. Por isso, quando me pegava acariciando seu rosto ou seus cabelos jogados de lado, me perguntava por que estava fazendo aquilo. Mas isso vinha de uma forma tão sem pensar e o fato de que você gostava, não me deixava em uma situação melhor. Concordamos em não ter nós na corda, já que eles são bem difíceis de tirar e posso dizer que alguns são impossíveis ou então se parecem muito com isso. Até então, parecia uma boa ideia. Mas, acho que os dois lados falharam terrivelmente nessa tarefa. No fim, nossa corda acabou ficando meio bagunçada entre nós e embaraços, restando a dúvida se é melhor deixar assim mesmo, jogando-a no quartinho de coisas velhas como algo sem muita importância ou então se tentamos desfazer os embaraços para possíveis nós no futuro. 
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