Talvez você não saiba, mas eu estava precisando disso. Precisava ser limpa e de alguma forma acordada, mas você fez muito mais essa noite. A última vez que passei por esse mesmo caminho, também com as roupas molhadas, estava correndo, pisando em poças e pulando outras. A única coisa que carregava comigo era a vontade de segurar aquele sorriso pelo maior tempo que eu pudesse. 
Desta vez, apenas caminho, sentindo o frio dessa noite gelada me abraçar em uma tentativa inútil de me fazer sentir frio, já que estou muito distraída com outra coisa para poder sentir algo tão insignificante no momento como o frio. Com o passar das casas ao meu lado, minhas roupas vão ficando cada vez mais pesadas por conta da água da chuva. Mas para mim, parece que esse peso vem de outra coisa e não das gotas se acumulando na minha roupa. 
Sinto um peso, não só nas costas, mas em todo o meu corpo, isso porque esse peso está percorrendo por toda a minha estrutura física. Um peso que não se originou apenas da chuva. Além disso, sinto cada gota caindo no meu corpo, porém de uma forma diferente, como se estivessem me atravessando, algumas mais fortes que outras, entretanto, todas me acertam enquanto faço algo tão simples como caminhar. A cada impacto, em vez de me sentir mais acordada, acabo ficando mais fora desse mundo, fora de mim, como se o meu eu quisesse encontrar outro hospedeiro na tentativa de solucionar o problema. 
Eu realmente esperava que depois de ser "lavada", poderia me sentir pelo menos um pouco melhor, talvez. Contudo, ao chegar no final da rua, percebo que estou da mesma forma e a única diferença é que estou completamente molhada. Porém, confesso que a água não vinha apenas de cima, mas também de dentro de mim. Também esperava que essa situação fosse de alguma forma, um momento acolhedor, mas está difícil de pensar em algum que poderia cessar o meu interior. Talvez o que cessaria é a mesma pessoa que ocasionou isso tudo ou então, nem ela por completo. 
Agora, enquanto fecho minhas mãos com toda a força que ainda possuo, sinto algo me atingindo com muito mais força que algumas gotas fizeram, além de acertar o corpo inteiro de uma vez, me fazendo entrar em choque. De repente me vejo caída no chão, imóvel pela potência da batida. Duas luzes em cima de mim, impossibilitando minha visão. Talvez eu ainda consiga levantar após tudo isso, no entanto, quero ficar aqui, deitada no asfalto, sentindo a chuva caindo no meu rosto. Só quero ficar assim por mais algum tempo, até sentir que é a hora certa para me levantar. 
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Certa vez, eu li uma história sobre duas pessoas que viviam na escuridão. Os dois apenas respiravam, sem nenhum propósito a mais. Somente achavam que não faziam diferença alguma para ninguém. Mas, na hora que eles colidiram, eles bateram uma escuridão com a outra. Tudo poderia ter ficado mais escuro e assim, os dois seriam sufocados pela ânsia de tentar encontrar alguma coisa para enxergar. Entretanto, não foi o que aconteceu. Ao colidir dois mundos completamente negros, que até então pareciam não ter salvação, foi criada uma luz, capaz de clarear toda a parte negra. E com isso, os dois perceberam que haviam muitas coisas que eles não conseguiam ver por estar tudo de certa forma, camuflado. 
Porém, não foi na minha primeira leitura que percebi tudo isso. Senti, é claro, muitas coisas, mas não essa profundidade que sinto agora. Essa é a parte interessante de histórias. Elas podem ter significados diferentes, mudando de acordo com o seu momento na vida. Assim, só foi na segunda leitura que eu notei algo: você não percebe que está na escuridão até alguém te salvar dela. 
E depois de ler essa história, eu acabou lembrando de outra.
Não posso afirmar com tanta certeza qual era a sua porcentagem de participação nesse quarto escuro, sua própria escuridão. No meu caso, não estava completamente nele, apenas uma parte, que talvez seja uma das partes mais importantes do meu corpo. Mas, mesmo não estando completamente coberta por esse algo escuro, eu decidi entrar, como se estivesse de olhos fechados, não vendo nada. Porém, não em minha própria escuridão, até porque estava saindo dela, mas sim, na sua. Decidi porque eu sabia que tinha algo naquele lugar. De alguma forma eu apenas sabia. Sentia. Mesmo não conhecendo nada sobre e nem sabendo ao certo o que me esperava.
Sua respiração fraca estava pedindo socorro, em um tom tão baixo que talvez só quem conhecesse esse lugar tão bem, poderia escutar. Só precisava te encontrar. E encontrei. Agachado. Acanhado. Sem forças para apenas olhar para cima. Porque eu estava lá, diante de você. Mesmo assim, senti o exato momento em que você segurou em minha mão, como uma criança pedindo para ser salva de seus bichos papões. Nos abraçamos, sem total noção da superfície de cada um. Apenas sentimos. A escuridão um do outro. 
Então, da mesma forma que em uma história, nos acendemos para o mundo. Estamos visíveis de uma forma diferente. Uma forma que antes disso, não existia, nem para mim e nem para você. Não nos importando se vamos incomodar alguém ao redor com a nossa claridade. Porque ao final disso, talvez esses dois mundos escuros tiveram alguma utilidade que não apenas nos escurecer por dentro. É nesse momento que você percebe que foi acendido pela escuridão de outro alguém.
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Foi mais forte que eu. Não foi a primeira vez que rolou o desejo mútuo entre duas pessoas. E te ter ao lado, me olhando como se nada estivesse à sua volta, apenas eu, foi de tirar o ar de dentro de mim. Apenas tive vontade de fazer uma coisa, mas por um momento, enquanto olhava os seus olhos, tão sedutores, pensei em passar a noite toda apenas os olhando, como algo vicioso que você só precisa de uma dose atrás de outra. 
Na metade do caminho, à centímetros de você, haviam tantas coisas nos separamos que esses centímetros se tornaram em quilômetros. Do motivo mais banal até o mais preocupante para ambas as partes e eles me forçavam de alguma forma a ficar onde eu estava, como uma mão no meu peito, me empurrando para trás ou então não me deixando prosseguir. Ainda assim, o meu desejo de você acabou se sobressaindo, passando por cima de tudo isso, me fazendo apenas tocar por alguns instantes em um mundo que vinha há muito tempo desejando conhecer. 
Mergulhei. Mesmo sabendo que talvez eu poderia me afogar por um simples gesto, ainda assim, quis mergulhar em você e sentir o seu toque molhado em todo o meu corpo. Pude sentir cada onda invadindo o meu interior em um movimento louco de vai e vem, me fazendo abrir os braços e me deixar ser levada pelas ondas do seu corpo. Senti cada onda quebrando sobre mim, me fazendo gradualmente querer ir ao encontro de cada uma. 
Um lugar maravilhoso como esse é difícil de não ter vontade de explorar cada parte. Todos os mínimos detalhes. Um dos mundos mais perturbadores que já tive por perto que talvez nunca pare de me atormentar.
No entanto, mesmo que obtenha algo muito atrativo para mim, sinto que eu não deva fazer parte desse mundo. Enquanto o tocava e o sentia, pude notar que ele não foi feito para mim. Até poderia chegar perto do seu certo explorador, mas não seria o ideal. É como se eu fosse um protagonista em uma história que não o pertence, que nela talvez até resultaria em algo interessante, porém nada além disso. Então, resolvi deixar que a mão me afastasse de você e que talvez ela me levasse para o meu mundo ideal. Aquele que quando eu adentrar, me fará sentir a protagonista da história certa.
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21.4.17
Nossos rabiscos

Essa tensão está aqui há muito tempo. Acho que nós sabemos disso desde o começo, mas por alguma razão que tento encontrar até hoje, nunca discutimos isso e quanto mais tempo passa, tenho mais certeza que nunca vamos fazer isso. Ainda assim, eu sei que você pensa a mesma coisa que eu sobre tudo isso, mas da mesma forma, também não sabe como lidar com esse assunto, se é melhor deixar de lado ou dar a importância que achamos que merece de alguma forma. Na verdade, já fizemos essa escolha. Deixamos isso de lado. Preferimos dar atenção ao que era mais importante ou talvez, mais fácil. Soubemos lidar com isso por muito tempo, claro, com alguns furos, mas, soubemos. Entretanto, venho percebendo que nossas realidades já não são mais as mesmas, perdemos o nosso ritmo. Não diria que você está mais rápido ou devagar, apenas estamos em ritmos diferentes, nos deixando desiguais. Não sou a única que percebeu isso, você sabe, e começou a agir como tal, só que de uma forma que eu não esperava, pelo menos, de você não. Por quê? Apenas, me diga a razão para tudo isso. Mas não. Você prefere o silêncio, enquanto eu prefiro ignorar tudo isso porque eu já tentei, tentei encontrar algum sinal na sua mudez e sempre termino em frustração. É impossível tirar conclusão de alguma coisa que eu não tenho nem ideia do que está acontecendo. Então, me diz, o que você quer de mim. Só me diz! Você quer uma parte de mim? Meu interior? Poderia te dar qualquer coisa, Meu corpo inteiro. Lhe daria para usar da forma que você quisesse, contudo, preciso que me peça antes disso. Diga olhando nos meus olhos, diga bem perto de mim sussurrando no meu ouvido, grite, qualquer forma, desde que você ache que é a melhor para se usar no momento. Sabe aqueles rabiscos que uma criança faz quando ela não sabe ainda como desenhar? Esses rabiscos são a nossa representação mais nua e crua. Começamos nisso de uma forma que não sabemos como, também não temos ideia de como isso vai acabar e por fim, a confusão desses rabiscos está por todo o nosso corpo e também entre nós. E mesmo sabendo de tudo isso, ainda continuamos fazendo os mesmos rabiscos, e às vezes até ficamos entrelaçados neles, até algum dia aprendermos ou sabermos como desenhar da forma certa. 
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