Certa vez, eu li uma história sobre duas pessoas que viviam na escuridão. Os dois apenas respiravam, sem nenhum propósito a mais. Somente achavam que não faziam diferença alguma para ninguém. Mas, na hora que eles colidiram, eles bateram uma escuridão com a outra. Tudo poderia ter ficado mais escuro e assim, os dois seriam sufocados pela ânsia de tentar encontrar alguma coisa para enxergar. Entretanto, não foi o que aconteceu. Ao colidir dois mundos completamente negros, que até então pareciam não ter salvação, foi criada uma luz, capaz de clarear toda a parte negra. E com isso, os dois perceberam que haviam muitas coisas que eles não conseguiam ver por estar tudo de certa forma, camuflado. 
Porém, não foi na minha primeira leitura que percebi tudo isso. Senti, é claro, muitas coisas, mas não essa profundidade que sinto agora. Essa é a parte interessante de histórias. Elas podem ter significados diferentes, mudando de acordo com o seu momento na vida. Assim, só foi na segunda leitura que eu notei algo: você não percebe que está na escuridão até alguém te salvar dela. 
E depois de ler essa história, eu acabou lembrando de outra.
Não posso afirmar com tanta certeza qual era a sua porcentagem de participação nesse quarto escuro, sua própria escuridão. No meu caso, não estava completamente nele, apenas uma parte, que talvez seja uma das partes mais importantes do meu corpo. Mas, mesmo não estando completamente coberta por esse algo escuro, eu decidi entrar, como se estivesse de olhos fechados, não vendo nada. Porém, não em minha própria escuridão, até porque estava saindo dela, mas sim, na sua. Decidi porque eu sabia que tinha algo naquele lugar. De alguma forma eu apenas sabia. Sentia. Mesmo não conhecendo nada sobre e nem sabendo ao certo o que me esperava.
Sua respiração fraca estava pedindo socorro, em um tom tão baixo que talvez só quem conhecesse esse lugar tão bem, poderia escutar. Só precisava te encontrar. E encontrei. Agachado. Acanhado. Sem forças para apenas olhar para cima. Porque eu estava lá, diante de você. Mesmo assim, senti o exato momento em que você segurou em minha mão, como uma criança pedindo para ser salva de seus bichos papões. Nos abraçamos, sem total noção da superfície de cada um. Apenas sentimos. A escuridão um do outro. 
Então, da mesma forma que em uma história, nos acendemos para o mundo. Estamos visíveis de uma forma diferente. Uma forma que antes disso, não existia, nem para mim e nem para você. Não nos importando se vamos incomodar alguém ao redor com a nossa claridade. Porque ao final disso, talvez esses dois mundos escuros tiveram alguma utilidade que não apenas nos escurecer por dentro. É nesse momento que você percebe que foi acendido pela escuridão de outro alguém.
Compartilhar:
Comentários:
Foi mais forte que eu. Não foi a primeira vez que rolou o desejo mútuo entre duas pessoas. E te ter ao lado, me olhando como se nada estivesse à sua volta, apenas eu, foi de tirar o ar de dentro de mim. Apenas tive vontade de fazer uma coisa, mas por um momento, enquanto olhava os seus olhos, tão sedutores, pensei em passar a noite toda apenas os olhando, como algo vicioso que você só precisa de uma dose atrás de outra. 
Na metade do caminho, à centímetros de você, haviam tantas coisas nos separamos que esses centímetros se tornaram em quilômetros. Do motivo mais banal até o mais preocupante para ambas as partes e eles me forçavam de alguma forma a ficar onde eu estava, como uma mão no meu peito, me empurrando para trás ou então não me deixando prosseguir. Ainda assim, o meu desejo de você acabou se sobressaindo, passando por cima de tudo isso, me fazendo apenas tocar por alguns instantes em um mundo que vinha há muito tempo desejando conhecer. 
Mergulhei. Mesmo sabendo que talvez eu poderia me afogar por um simples gesto, ainda assim, quis mergulhar em você e sentir o seu toque molhado em todo o meu corpo. Pude sentir cada onda invadindo o meu interior em um movimento louco de vai e vem, me fazendo abrir os braços e me deixar ser levada pelas ondas do seu corpo. Senti cada onda quebrando sobre mim, me fazendo gradualmente querer ir ao encontro de cada uma. 
Um lugar maravilhoso como esse é difícil de não ter vontade de explorar cada parte. Todos os mínimos detalhes. Um dos mundos mais perturbadores que já tive por perto que talvez nunca pare de me atormentar.
No entanto, mesmo que obtenha algo muito atrativo para mim, sinto que eu não deva fazer parte desse mundo. Enquanto o tocava e o sentia, pude notar que ele não foi feito para mim. Até poderia chegar perto do seu certo explorador, mas não seria o ideal. É como se eu fosse um protagonista em uma história que não o pertence, que nela talvez até resultaria em algo interessante, porém nada além disso. Então, resolvi deixar que a mão me afastasse de você e que talvez ela me levasse para o meu mundo ideal. Aquele que quando eu adentrar, me fará sentir a protagonista da história certa.
Compartilhar:
Comentários:
21.4.17
Nossos rabiscos

Essa tensão está aqui há muito tempo. Acho que nós sabemos disso desde o começo, mas por alguma razão que tento encontrar até hoje, nunca discutimos isso e quanto mais tempo passa, tenho mais certeza que nunca vamos fazer isso. Ainda assim, eu sei que você pensa a mesma coisa que eu sobre tudo isso, mas da mesma forma, também não sabe como lidar com esse assunto, se é melhor deixar de lado ou dar a importância que achamos que merece de alguma forma. Na verdade, já fizemos essa escolha. Deixamos isso de lado. Preferimos dar atenção ao que era mais importante ou talvez, mais fácil. Soubemos lidar com isso por muito tempo, claro, com alguns furos, mas, soubemos. Entretanto, venho percebendo que nossas realidades já não são mais as mesmas, perdemos o nosso ritmo. Não diria que você está mais rápido ou devagar, apenas estamos em ritmos diferentes, nos deixando desiguais. Não sou a única que percebeu isso, você sabe, e começou a agir como tal, só que de uma forma que eu não esperava, pelo menos, de você não. Por quê? Apenas, me diga a razão para tudo isso. Mas não. Você prefere o silêncio, enquanto eu prefiro ignorar tudo isso porque eu já tentei, tentei encontrar algum sinal na sua mudez e sempre termino em frustração. É impossível tirar conclusão de alguma coisa que eu não tenho nem ideia do que está acontecendo. Então, me diz, o que você quer de mim. Só me diz! Você quer uma parte de mim? Meu interior? Poderia te dar qualquer coisa, Meu corpo inteiro. Lhe daria para usar da forma que você quisesse, contudo, preciso que me peça antes disso. Diga olhando nos meus olhos, diga bem perto de mim sussurrando no meu ouvido, grite, qualquer forma, desde que você ache que é a melhor para se usar no momento. Sabe aqueles rabiscos que uma criança faz quando ela não sabe ainda como desenhar? Esses rabiscos são a nossa representação mais nua e crua. Começamos nisso de uma forma que não sabemos como, também não temos ideia de como isso vai acabar e por fim, a confusão desses rabiscos está por todo o nosso corpo e também entre nós. E mesmo sabendo de tudo isso, ainda continuamos fazendo os mesmos rabiscos, e às vezes até ficamos entrelaçados neles, até algum dia aprendermos ou sabermos como desenhar da forma certa. 
Compartilhar:
Comentários:
27.3.17
Déjà Vu
Já tentei, confesso. Várias vezes. Mas nunca sai nada que faça algum sentido ou então que faça jus ao que eu realmente tenho aqui comigo. Realmente está bem difícil dessa vez e começo a sentir que cada vez mais isso vai sair do meu controle. As palavras não ficam alinhadas em uma única frase que possa transmitir pelo menos um terço do que realmente está acontecendo aqui. E essa confusão está em mim. Eu não consigo dizer nada a não ser ficar pensando nisso o tempo todo, repassando tudo e analisando cada vez mais os detalhes para talvez encontrar algo que forme a base que preciso para recomeçar. 
Eu já vi isso acontecer uma vez, anos atrás que lembro como se fosse hoje. Agora, estou sentindo esse déjà vu percorrendo por mim e me deixando sem forças para manter as barreiras que eu criei ao meu redor em pé. Elas são fortes, aguentaram muitas coisas, mas elas balançam, tremem e ameaçam cair no chão a qualquer momento. Para minha sorte, todos esses anos de treinamento estão servindo para algo e mesmo ouvindo esse barulho pré desmoronamento, consigo manter as barreiras onde elas devem estar, pelo menos por agora. 
Foram anos de vulnerabilidade e não guardo boas lembranças, então está sendo difícil lidar com a ideia de estar vulnerável novamente. Não consigo me sentir segura enquanto alguém adentra o meu território sem um prévio aviso e que deseja nele ficar. A situação sempre foi mais fácil com as minhas barreiras ao redor, me protegendo de qualquer coisa e fiquei muito boa nisso, em mantê-las no lugar a qualquer custo. Mas mesmo assim, elas cismaram em fraquejar agora. 
Me sinto vulnerável até mesmo quando sinto você atrás de mim e de alguma forma sinto seus olhos fuzilando minhas costas. E ao em vez de querer um abraço seu para ter algum consolo, eu prefiro fugir da situação​ da minha forma, do jeito que eu faço por muito tempo, da forma que eu fui obrigada a aprender. O meu melhor consolo sou eu mesma, meu próprio corpo me dizendo como devo agir. 
Mas, apesar das minhas barreiras estarem mais fracas, não vou mudá-las de lugar e nem vou me deslocar. Ficarei aqui e com elas me protegendo. Quero ver toda essa situação acontecer, como tudo vai se desenrolar. Porque por mais que sinto o déjà vu, esse momento me proporciona prazeres que não tive da vez passada. Vivências que deveriam ter acontecido. Calor que deveria ter sido trocado. E a vontade de ficar que deveria ter sido mantida. Arrisco dizer que é uma versão de como tudo deveria ter acontecido. Então talvez essa seja a causa de tanta fragilidade por minha parte. O medo de tudo ser muito bom para ser verdade, que atrás de tudo isso, exista algo pra acabar comigo. Porém, dessa vez, eu conto com algo que não tive antes: eu mesma. 
Compartilhar:
Comentários:
2012-2016 © MEUSDELIRIOS.COM - DIREITOS RESERVADOS.