Ela costumava dizer o quão vazio o mundo poderia ser. Já que havia chegado à um ponto que poucos chegariam e suportariam. Um dia finalmente disse o que conseguia escutar no escuro, como essas vozes poderiam ser altas, dolorosas e perturbantes, acrescentando no mesmo discurso que de vez em quando, ficava nele sem poder sair por um bom tempo. Porém, o que mais repetia dentre todas essas coisas, era o que mais "parecia" sentir. Ela sempre aproveitava a oportunidade de falar sobre essa dor, sobre como isso ainda a perseguia, por mais que houvesse um momento onde isso não fazia sentido. A dor da solidão, a dor de estar literalmente sozinha. Isso era o que mais temia, ela dizia.
Mas, parece que o mundo fez o favor de girar e assim, todos esses medos foram colocados em uma caixa. Sem pressa alguma. Um por um, ocupando o seu espaço nesse objeto retangular. E assim, foi o momento de fechar a caixa. Eles não seriam "necessários" no momento e poderiam ficar ali dentro por algum tempo, selados por quatro paredes de papel. 
O mundo continuou girando, e aquela pessoa que um dia não teve nada, passou a ter tudo. Todas as coisas e pessoas que seriam necessárias para segurá-la nesse lugar que é tão difícil de se viver. Ela tinha, pela primeira vez em anos, o que sempre desejou, mas que por alguma razão até então desconhecida, a vida não a proporcionou. Essa era a hora de realmente ter esse novo prazer e apenas senti-lo. Esse era o momento para mostrar que por mais que tenha sobrevivido à tudo aquilo dentro da caixa, até esse momento, ela não sabia ainda o real significado de viver. Mas, iria começar à partir de agora, ou pelo menos deveria. No entanto, ela decidiu fazer diferente do esperado. Resolveu colocar todas essas coisas novas também em uma caixa, porém essa ela não guardou. Logo após ter colocado a tampa, ela amassou com os próprios pés o que havia ali dentro. Colocando, assim, a sua pessoa acima de tudo. 
Assim, ela voltou para o começo, para onde talvez, ela não deveria ter saído, por ainda não saber viver no que realmente é real e verdadeiro. Talvez ela viveu tanto em um universo criado por ela mesma, que não aprendeu como "deveria" se portar neste novo mundo. E talvez nunca aprenda. Há uma vastidão de possibilidades pelas quais decidiu dar meia volta, porém nenhuma delas vai justificar a sua escolha. Talvez, ela precisa de mais algum tempo, ali sozinha, para aprender algo que não a faça pisar no futuro em uma caixa que ela deve manter aberta.
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26.7.17
O círculo
Não posso dizer com exata certeza quem invadiu o espaço do outro. Então, peço perdão por não ter essa exatidão. Mas, eu lembro exatamente o momento que estávamos no mesmo círculo, com uma medida razoável, contendo bastante espaço para você e para mim. Eu conseguia caminhar, assim como você, e fazia proveito disso para tentar de algum jeito conhecer todos os lados da sua forma, que apesar de alguns dizerem que você tinha uma forma humana, eu apenas via um quadrado. Então, por mais que eu tentasse enxergar tudo, você sempre continuava tendo um lado escondido e sempre o matinha dessa forma. 
Com o tempo, o espaço foi diminuindo gradativamente, ou seja, nada muito rápido, porém às vezes, lento demais. Por conta disso, eu fui me aproximando de você, até mesmo sem perceber, porque tudo estava acontecendo de uma forma natural. E, por incrível que pareça, ninguém nunca roubou ou ficou com o espaço do outro. Assim, passavam-se os dias e eu só observava a forma chegando perto cada vez mais, até ela ficar de frente para mim, sem nenhum espaço para se mover. 
Quando chegamos nesse ponto de apenas poder olhar a frente e os lados um do outro, você acabou ficando com dois lados que eu não podia ver. A única forma que eu tinha de conhecê-los era através de você, mais precisamente, das suas palavras. Mas, mesmo assim, por um bom tempo eu admirei o que eu via com os meus próprios olhos e sempre ficava fascinada pelo que não podia ver, porque aquilo de alguma forma prendia minha atenção. Nesse tempo, estando "distraída" por suas palavras, acabei não percebendo e deixando passar muitas coisas que estavam acontecendo no círculo. Contudo, ainda tive vontade de abraçar aquela forma à minha frente e apenas fiz isso, sem hesitar, ficando por um bom tempo assim. 
Aos poucos, fui percebendo uma dor que progressivamente ia se intensificando. E para falar a verdade, não sabia como essa dor começou e nem de onde tinha se originado. Porém, o tempo foi passando da mesma forma que antes, com uma única diferença que era essa pequena mudança. Até eu sentir algo escorrendo em mim. Logo quando percebi, encontrei facilmente a fonte de tudo isso, já que as linhas de sangue me guiaram até o quadrado que eu ainda abraçava com força. Ainda assim, me recusei a soltá-lo, por uma razão que não conseguia explicar, mas isso só fazia escorrer mais sangue, me deixando mais viva a cada gota. 
À partir desse momento, tive que abrir meus braços para largá-lo. Não conseguia mais sentir tanta dor, não conseguia mais o sentir do jeito que sentia. E após isso, a forma ainda ficou de frente para mim, no mesmo lugar, como se apenas eu estivesse sentindo tudo aquilo. E estava. Mas, somente o ato de soltar não foi o suficiente para mim, porque ainda sentia dor estando no mesmo espaço com o que ocasionou tudo isso. Então, a única solução que havia para mim era sair e abandonar esse círculo que passou a ser de alguma forma, prejudicial. Entretanto, para minha surpresa, ainda ficaram vestígios dos dias de dor e, às vezes, parece que ainda sinto algo escorrendo em mim, ou então, sinto pontas afiadas como as do quadrado me cutucando. 
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Talvez você não saiba, mas eu estava precisando disso. Precisava ser limpa e de alguma forma acordada, mas você fez muito mais essa noite. A última vez que passei por esse mesmo caminho, também com as roupas molhadas, estava correndo, pisando em poças e pulando outras. A única coisa que carregava comigo era a vontade de segurar aquele sorriso pelo maior tempo que eu pudesse. 
Desta vez, apenas caminho, sentindo o frio dessa noite gelada me abraçar em uma tentativa inútil de me fazer sentir frio, já que estou muito distraída com outra coisa para poder sentir algo tão insignificante no momento como o frio. Com o passar das casas ao meu lado, minhas roupas vão ficando cada vez mais pesadas por conta da água da chuva. Mas para mim, parece que esse peso vem de outra coisa e não das gotas se acumulando na minha roupa. 
Sinto um peso, não só nas costas, mas em todo o meu corpo, isso porque esse peso está percorrendo por toda a minha estrutura física. Um peso que não se originou apenas da chuva. Além disso, sinto cada gota caindo no meu corpo, porém de uma forma diferente, como se estivessem me atravessando, algumas mais fortes que outras, entretanto, todas me acertam enquanto faço algo tão simples como caminhar. A cada impacto, em vez de me sentir mais acordada, acabo ficando mais fora desse mundo, fora de mim, como se o meu eu quisesse encontrar outro hospedeiro na tentativa de solucionar o problema. 
Eu realmente esperava que depois de ser "lavada", poderia me sentir pelo menos um pouco melhor, talvez. Contudo, ao chegar no final da rua, percebo que estou da mesma forma e a única diferença é que estou completamente molhada. Porém, confesso que a água não vinha apenas de cima, mas também de dentro de mim. Também esperava que essa situação fosse de alguma forma, um momento acolhedor, mas está difícil de pensar em algum que poderia cessar o meu interior. Talvez o que cessaria é a mesma pessoa que ocasionou isso tudo ou então, nem ela por completo. 
Agora, enquanto fecho minhas mãos com toda a força que ainda possuo, sinto algo me atingindo com muito mais força que algumas gotas fizeram, além de acertar o corpo inteiro de uma vez, me fazendo entrar em choque. De repente me vejo caída no chão, imóvel pela potência da batida. Duas luzes em cima de mim, impossibilitando minha visão. Talvez eu ainda consiga levantar após tudo isso, no entanto, quero ficar aqui, deitada no asfalto, sentindo a chuva caindo no meu rosto. Só quero ficar assim por mais algum tempo, até sentir que é a hora certa para me levantar. 
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Certa vez, eu li uma história sobre duas pessoas que viviam na escuridão. Os dois apenas respiravam, sem nenhum propósito a mais. Somente achavam que não faziam diferença alguma para ninguém. Mas, na hora que eles colidiram, eles bateram uma escuridão com a outra. Tudo poderia ter ficado mais escuro e assim, os dois seriam sufocados pela ânsia de tentar encontrar alguma coisa para enxergar. Entretanto, não foi o que aconteceu. Ao colidir dois mundos completamente negros, que até então pareciam não ter salvação, foi criada uma luz, capaz de clarear toda a parte negra. E com isso, os dois perceberam que haviam muitas coisas que eles não conseguiam ver por estar tudo de certa forma, camuflado. 
Porém, não foi na minha primeira leitura que percebi tudo isso. Senti, é claro, muitas coisas, mas não essa profundidade que sinto agora. Essa é a parte interessante de histórias. Elas podem ter significados diferentes, mudando de acordo com o seu momento na vida. Assim, só foi na segunda leitura que eu notei algo: você não percebe que está na escuridão até alguém te salvar dela. 
E depois de ler essa história, eu acabou lembrando de outra.
Não posso afirmar com tanta certeza qual era a sua porcentagem de participação nesse quarto escuro, sua própria escuridão. No meu caso, não estava completamente nele, apenas uma parte, que talvez seja uma das partes mais importantes do meu corpo. Mas, mesmo não estando completamente coberta por esse algo escuro, eu decidi entrar, como se estivesse de olhos fechados, não vendo nada. Porém, não em minha própria escuridão, até porque estava saindo dela, mas sim, na sua. Decidi porque eu sabia que tinha algo naquele lugar. De alguma forma eu apenas sabia. Sentia. Mesmo não conhecendo nada sobre e nem sabendo ao certo o que me esperava.
Sua respiração fraca estava pedindo socorro, em um tom tão baixo que talvez só quem conhecesse esse lugar tão bem, poderia escutar. Só precisava te encontrar. E encontrei. Agachado. Acanhado. Sem forças para apenas olhar para cima. Porque eu estava lá, diante de você. Mesmo assim, senti o exato momento em que você segurou em minha mão, como uma criança pedindo para ser salva de seus bichos papões. Nos abraçamos, sem total noção da superfície de cada um. Apenas sentimos. A escuridão um do outro. 
Então, da mesma forma que em uma história, nos acendemos para o mundo. Estamos visíveis de uma forma diferente. Uma forma que antes disso, não existia, nem para mim e nem para você. Não nos importando se vamos incomodar alguém ao redor com a nossa claridade. Porque ao final disso, talvez esses dois mundos escuros tiveram alguma utilidade que não apenas nos escurecer por dentro. É nesse momento que você percebe que foi acendido pela escuridão de outro alguém.
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Foi mais forte que eu. Não foi a primeira vez que rolou o desejo mútuo entre duas pessoas. E te ter ao lado, me olhando como se nada estivesse à sua volta, apenas eu, foi de tirar o ar de dentro de mim. Apenas tive vontade de fazer uma coisa, mas por um momento, enquanto olhava os seus olhos, tão sedutores, pensei em passar a noite toda apenas os olhando, como algo vicioso que você só precisa de uma dose atrás de outra. 
Na metade do caminho, à centímetros de você, haviam tantas coisas nos separamos que esses centímetros se tornaram em quilômetros. Do motivo mais banal até o mais preocupante para ambas as partes e eles me forçavam de alguma forma a ficar onde eu estava, como uma mão no meu peito, me empurrando para trás ou então não me deixando prosseguir. Ainda assim, o meu desejo de você acabou se sobressaindo, passando por cima de tudo isso, me fazendo apenas tocar por alguns instantes em um mundo que vinha há muito tempo desejando conhecer. 
Mergulhei. Mesmo sabendo que talvez eu poderia me afogar por um simples gesto, ainda assim, quis mergulhar em você e sentir o seu toque molhado em todo o meu corpo. Pude sentir cada onda invadindo o meu interior em um movimento louco de vai e vem, me fazendo abrir os braços e me deixar ser levada pelas ondas do seu corpo. Senti cada onda quebrando sobre mim, me fazendo gradualmente querer ir ao encontro de cada uma. 
Um lugar maravilhoso como esse é difícil de não ter vontade de explorar cada parte. Todos os mínimos detalhes. Um dos mundos mais perturbadores que já tive por perto que talvez nunca pare de me atormentar.
No entanto, mesmo que obtenha algo muito atrativo para mim, sinto que eu não deva fazer parte desse mundo. Enquanto o tocava e o sentia, pude notar que ele não foi feito para mim. Até poderia chegar perto do seu certo explorador, mas não seria o ideal. É como se eu fosse um protagonista em uma história que não o pertence, que nela talvez até resultaria em algo interessante, porém nada além disso. Então, resolvi deixar que a mão me afastasse de você e que talvez ela me levasse para o meu mundo ideal. Aquele que quando eu adentrar, me fará sentir a protagonista da história certa.
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